Rasgando meu peito ao meio encontro o coração pulsando, batendo, vermelho. Então, com minhas unhas, entranho o cardíaco e o aperto com toda a força que sai dele. Que sai da minha alma. A raiva que sai da mente. Os pedaços se dissolvem no espaço, eu viro estrela e carne e planeta.
Saio finalmente dessa carcaça e posso ir pra onde der vontade, sem pernas, sem pés, pura poros. Absorvendo tudo. Sendo tudo.
Ah, o vento, as cores, as línguas, a água, a sujeira viscosa e voluptosa da terra, da areia, do roçar com o mar. Sentir o por fora no dentro, e o dentro já junto no por fora, tudo uma coisa só, eu uma coisa só, eu sou o resto e estou em tudo. Sou tudo.
Nas alturas na lava dos vulcões nas placas tectônicas nos peixes a cento e trinta metros de profundidade nos corais esquecidos nas nuvens azuis e nas nuvens cinzentadas nas folhas de papel e nas folhas das árvores nos troncos ancestrais e finalmente eu.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
2006
Um gelado escaldante, doce, colorido, viscoso, veloz e voluptuoso era o vento. O cavalo corria, corria, corria, quase, quase o sentia flutuar confundido na nuvem de poeira branca amarelada pelo crepúsculo, e ele mal sentia a vida nessa velocidade tão fechada.
Dos olhos fechados com força escapava uma lágrima utópica, já fria de tanto guardada, estragada, atrasada, proibida. Não podia mais proibir-se. Teria que montar no cavalo e sentir o vento, libertar a lágrima, o suor, seus odores, deixar sentimentos de rastros.
As colinas diminuíam, o céu inclinava-se sorridente, as cores, tão aguçadas e agoniadas confundiam-se aos olhos dele. Os sons eram uma sinfonia resguardada no silêncio do pensamento proibido. As pessoas raramente existiam.
Ele não queria ver as cores, por medo de sair do tão aconchegante escuro amigo. Ele planejava nada, pois o acaso era seu amigo. Não recordava-se de ter chorado na vida, só em sonhos, havia esquecido de como se fazia lágrimas.
-
Acordou tranqüilo, resignado. Acostumado a morrer acordado e sonhando viver. Encarou o teto branco do quarto, com preguiça de continuar a morrer, saindo de levinho da atmosfera da vida sonolenta e onírica. O vidro mal lavado escondia a cidade que se revelava expressionista através da poeira, da sujeira e da preguiça. Levantou-se como em um impulso, por vontade própria não o teria feito. Sentiu a umidade impregnada no chão do apartamento, e, como só ao sentir essa sensação gosmenta enfim acordasse, percebeu que deixara a vitrola funcionando.
Tocava fino, manso, pois o vinil sempre repetia a mesma música. Chico Buarque cantava melancólico e arranhado "As vitrines" enquanto ele buscava cafeína no fundo da geladeira. Bebia o café gelado, estático, estando na música e sentindo as calçadas, os olhos nas vitrines e o frio da noite do Rio de Janeiro.
O café frio não conseguiu aliviar o calor do mormaço bagunçado do apartamento. Suado, ele olhou para a pilha de livros que jaziam ao lado de uma garrafa de vodca vazia, cuja lembrança entorpecente ainda era criança na memória.
-
Deitado no sofá azul, o teto girava aos olhos dele, e de repente se via refletido nos olhos dela. Ele cantava, cantava desafinado, gritava o álcool em sua veia, e ela ria e o abraçava, cantando junto, entorpecida pelo tédio.
Aqueles olhos de expressionismo alemão. As noites nubladas de vontades, prenúncios. As músicas altas, todas aquelas pessoas, será que existiam de verdade?
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Dos olhos fechados com força escapava uma lágrima utópica, já fria de tanto guardada, estragada, atrasada, proibida. Não podia mais proibir-se. Teria que montar no cavalo e sentir o vento, libertar a lágrima, o suor, seus odores, deixar sentimentos de rastros.
As colinas diminuíam, o céu inclinava-se sorridente, as cores, tão aguçadas e agoniadas confundiam-se aos olhos dele. Os sons eram uma sinfonia resguardada no silêncio do pensamento proibido. As pessoas raramente existiam.
Ele não queria ver as cores, por medo de sair do tão aconchegante escuro amigo. Ele planejava nada, pois o acaso era seu amigo. Não recordava-se de ter chorado na vida, só em sonhos, havia esquecido de como se fazia lágrimas.
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Acordou tranqüilo, resignado. Acostumado a morrer acordado e sonhando viver. Encarou o teto branco do quarto, com preguiça de continuar a morrer, saindo de levinho da atmosfera da vida sonolenta e onírica. O vidro mal lavado escondia a cidade que se revelava expressionista através da poeira, da sujeira e da preguiça. Levantou-se como em um impulso, por vontade própria não o teria feito. Sentiu a umidade impregnada no chão do apartamento, e, como só ao sentir essa sensação gosmenta enfim acordasse, percebeu que deixara a vitrola funcionando.
Tocava fino, manso, pois o vinil sempre repetia a mesma música. Chico Buarque cantava melancólico e arranhado "As vitrines" enquanto ele buscava cafeína no fundo da geladeira. Bebia o café gelado, estático, estando na música e sentindo as calçadas, os olhos nas vitrines e o frio da noite do Rio de Janeiro.
O café frio não conseguiu aliviar o calor do mormaço bagunçado do apartamento. Suado, ele olhou para a pilha de livros que jaziam ao lado de uma garrafa de vodca vazia, cuja lembrança entorpecente ainda era criança na memória.
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Deitado no sofá azul, o teto girava aos olhos dele, e de repente se via refletido nos olhos dela. Ele cantava, cantava desafinado, gritava o álcool em sua veia, e ela ria e o abraçava, cantando junto, entorpecida pelo tédio.
Aqueles olhos de expressionismo alemão. As noites nubladas de vontades, prenúncios. As músicas altas, todas aquelas pessoas, será que existiam de verdade?
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