Sinto falta de solidão. Uma solidão profunda que tive há algum tempo, para mim tão distante, mas acho que como sou jovem, não deve fazer muito tempo. As tardezinhas mornas, andando pelas minhas ruas bem frias de cores e minha mente tão perdida naquilo tudo. Uma música tocando na cabeça, a imaginação ia fluindo na vida. Possibilidades mil e esperança nenhuma. Mundo grande e fechado para mim. Tanto faz, eu só tinha dezesseis ou era dezessete anos mesmo. Que diferença alguma coisa faria?
A vida parecia um tédio que vinha de um sonho, parecia que as coisas aconteceriam poeticamente para mim. E foram acontecendo. Será? Os dias que eu ia até a locadora escolher com algum cuidado algum filme bem sem diálogos. Cheio de detalhes. Sutilezas que eu imaginava. Hoje eu escolho com tanto cuidado que nem alugo nada. Saio achando que não tem mais nada de bom, que nada me impressiona mais.
Eu vivia só e achava que isso seria eterno. Que mesmo com alguém, eu seria só. Eu sei hoje que isso é verdade, mas eu gostaria de ter essa solidão específica de volta. De conseguir me reconhecer nas fotos, de conseguir me reconhecer nas músicas que até hoje me são tão queridas. De conseguir entrar no mundo, e não fugir dele.
Aonde eu estou vivendo? Parece que isso é um universo paralelo com o que estou hoje.
Eu talvez não conseguisse agora expressar o quanto gosto de viver a dois, é bom mergulhar em alguém. Mas cadê eu? O que me definia? Solidão, Clarice Lispector, Woody Allen, Belle & Sebastian, coisas bobas assim. Hoje eu penso tanta coisa que nem sei mais de nada. Porra.
